Terça-feira, 2 de Dezembro de 2008

Pontuar ou não pontuar...

Há um mês atrás, quando postei aquela frase fabulosa sobre champanhe x cerveja, o Nelson (do Pô, meu!, um dos meus blogs favoritos, que foi mandado para o lixo cibernético por uma criatura mal humorada) escreveu um comentário que rendeu uma boa conversa e algumas alterações nos meus marcadores sobre preços de vinhos: "O estado da arte é achar bons vinhos (tem que mensurar né?) lá entre 85 e 90 pontos na escala do Parker por até trintinha."


Desde então venho pensando e escrevendo sobre isso mentalmente, mas nunca consegui sair do rascunho. E agora parece que todos resolveram falar sobre pontuação. Bem feito mais uma vez, quem manda ficar só chocando as idéias?

Bobagem minha, afinal o que importa é a discussão. E esse assunto serve para longas discussões, longas conversas, longas postagens, como bem sabe o Bernardo quando escreveu Imagine there's no scores...

Até hoje não entendi qual o critério para dar 85 pontos para um vinho e não 86. Ou qual a diferença entre os dois. E aposto que muitos dos vinhos que tomo - e gosto, e repito, e que não provocam efeitos colaterais além dos desejados - devem receber nota 70 do pessoal que segue o oráculo. Prefiro falar das sensações que eles me despertam, se me fizeram sorrir, se me provocaram curiosidade de saber mais sobre uma determinada uva, se me deixaram triste por descobrir que aquela garrafa escolhida a dedo abrigava um vinho que não acrescentou nada ao pouco que já sei.

Não faz sentido, para mim, usar algo tão matemático quanto uma escala de notas em algo tão subjetivo quanto o vinho. Ele pode ter uma nota 95, o que pelo oráculo significa estar perto da perfeição (e sobre isso eu falo mais adiante) e mesmo assim provocar reações completamente distintas entre, por exemplo, o João Filipe e o Eduardo, para citar duas das pessoas cuja opinião eu levaria em conta ao investir preciosos reais numa garrafa especial.

O Bernardo vai mais adiante: ele compara vinhos a obras de arte (o que me lembra a tradução que fiz do post do Tom/Fermentation, onde ele compara vinhos de qualidade à obra do Van Morrison). "Por que é que até hoje ninguém deu nota para pintura, hein?" , ele pergunta. E eu repito: por que?

Mas quem sou eu, uma iniciante na arte de apreciar vinhos e que além de tudo tem deficiência olfativa, quem sou eu para fazer essas perguntas? Por isso sinto um enorme consolo quando leio coisas como a entrevista que a Jancis Robinson deu à Veja, onde ela afirma categoricamente que "a verdade é que não existe certo e errado na apreciação de um vinho. Todos têm preferências individuais e sensibilidades diferentes." E acrescenta: "A análise de vinho é pessoal. Por isso, acho que reduzir um vinho a uma nota é tolo, ilusório."

E isso de dar uma nota 100 tem outro lado, que poucos mencionam. Na estabelecida loucura de pontuar vinhos, como diz o Patricio Tapia, autor do guia Descorchados, parece que esquecemos o que esse número quer dizer. 100 não tem falhas. 100 resiste a críticas e informa que não há vida depois disso. 100 é perfeição e "todos sabemos que a vida, a realidade, nunca é assim."

Para encerrar, que o assunto pode se estender por parágrafos e parágrafos, sugiro a leitura de outra postagem do Bernardo, Uma proposta modesta: abandonar a escala de 100 pontos, que vem a ser a tradução de um artigo de David Lillie. Boa leitura!

16 Alguém quer dizer alguma coisa?:

Cristiano Orlandi disse...

Helô,

Parabéns pelo post! Está perfeito, ou sería nota 100? risos

Conseguiu resumir bem toda a discussão, fiquei admirado!

Escalas quantitativas grandes, base 100, tem esse grande defeito. Prefiro o ruim, aceitével, bom, muito bom e excepcional. Lebrando que um vinho só é excepcional quando a companhia, a situação é memorável!

Bjs!

Sou seu fã!

Cristiano
Vivendo Vinhos

Alexandre (Diário de Baco) disse...

"Por que é que até hoje ninguém deu nota para pintura, hein?"

Perfeito!

abs!
Alexandre

Rafael Loyola disse...

Helô,

ótimo post. Estive pensando e conversando com amigos sobre essas questões no mês passado, em especial, e o primeiro resultado disso foi minha opção por mudar a maneira como avalio os vinho em meu blog - de pontos para tacinhas que indicam se o vinho é ruim, bom, etc.

Seu post só me traz mais certeza de que fiz uma opção coerente!

Um grande abraço,
Rafael
(De Vinho em Vinho)

Beda disse...

Helô,

gosto da leveza com que você trata os assuntos. Às vezes me acho um chato...

Comecei a anotar aqui minhas observações, mas ficou tão longo (o Rodrigo ia me dar nota 38!) que decidi passá-las ao blog e postá-las como parte do debate.

Espero você lá. Beijo,
B

Helô disse...

Cristiano, obrigada pela nota! Concordo: vinho excepcional vem junto com companhia e situação memoráveis.
forte abraço gaúcho.

Alexandre, e não é? Em todas as minhas leituras, não havia encontrado ainda quem fosse tão direto assim ao ponto.
Grande abraço e muito obrigada pela criação do enoblogs. Somos todos teu devedores.

Rafael, acho as tacinhas muito mais simpáticas, em todos os sentidos.
Abraço grande também.

B, a leveza, se assim a chamas, reflete apenas a maneira menos "científica" de que disponho para expressar minhas idéias. Não sei se tendo uma educação formal nessa área não seria também mais engessada. Chato? Nunca! Só tenho elogios:)
Mas a continuação do debate vai ter que esperar até amanhã, que já gastei o fosfato de hoje...
beijo.
PS - acompanhas o forum de enogastronomia? me meti em outro debate-saia-justa por lá!

Cristiano Orlandi disse...

Helô,

Sem desconsiderar o que comentei anteriormente, mas fazendo uma boa reflexão, será que não exageramos quando comparamos um vinho a uma obra de arte?

Td bem que existem alguns vinhos que de fato o são, mas a minoria... acho que concordamos com isso, não?

O fim/objetivo do vinho é o consumo e as referências sobre o que é melhor e pior alimentam os críticos... Portanto, por pior que seja a qualidade da avaliação, ela não sería necessária? É melhor uma referência do que um tiro no escuro...

Será que no Brasil, pela cultura do vinhoa ainda ser mínima, não estamos valorizando demais as diferenças de um ponto, enquanto o resto do mundo encara como uma subjetividade?

Tá certo! Fiz o papel de advogado do Diabo, mas... achei que valía a pena! Em que pese a discussão toda ter sido iniciada por um crítico estrangeiro...

Bjs

Cristiano
Vivendo Vinhos

Nelson (Pô, meu!) disse...

Oi Helô,

Eu estou adorando essa série. Vinho é uma das minhas paixões amadoras. Aliás, pensando bem, acho que não recebo profissionalmente por nenhuma das minhas paixões. Preciso reverter isso.

Mas não era isso que eu queria falar. :-) Naquele meu pedido de vinhos Bons Bonitos e Baratos eu citei os 85 pontos só como uma referência. Assim como citaria o careca no meio da multidão, o ruivo da mesa ao lado da porta ou fusquinha verde abacate parado na rua. E não gosto de nenhum deles particularmente. :-D

Não ligo se a pontuação vai até 100, 20, 5 ou três. Só preciso saber que pagar 200 pratas por um vinho que talvez a minha sensibilidade não consiga perceber diferença de um de 50 reais, só para estudo. Mas como sou amador... ;-)

O Pô, meu! voltará em breve.

beijos,
Nelson

Helô disse...

fim de semana em Estrela, sem internet.
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Cristiano, eu não acho que seja exagero comparar vinho à arte. Vê bem, eu não disse "uma obra de arte" e sim "arte". O ponto de vista é: ambos são subjetivos. Essa é a questão.

Eu não sou contra a pontuação em si. Acredito que ela deva fazer muito sentido para o Robert Parker e as poucas pessoas que tem, além do conhecimento, o olfato e o paladar tão apurados como ele. O que eu sou contra é essa generalização. Para pessoas como eu (a maioria, talvez), ela mais confunde do que informa. Poucas pessoas sabem como ela é determinada, como se chega a um número específico.

Eu até imagino que esse sistema seja válido, por exemplo, numa reportagem detalhada onde não apenas o número final mas todos os componentes desse número sejam especificados. Um grande conhecedor/comprador de vinhos se beneficiaria sabendo, por exemplo, que determinado vinho não recebeu a nota máxima no quesito cor, por exemplo.

É claro que precisamos, principalmente nós, os leigos, de alguma forma de avaliação para ajudar na escolha. Mas me pergunto de que serve para gente como eu saber esses números?

Número é, sim, um critério objetivo, matemático, não importando como essa tabela do Parker seja vista lá fora. E na verdade essa discussão não foi inciada por um crítico estrangeiro. Taí o Nelson, que não me deixa mentir.

Mas o bom de tudo isso é nossa discussão. É só assim que crescemos. Que ela continue!

Da minha parte, muito obrigada pela tua participação. Beijo de boa semana.

Helô disse...

Nelson, que bom ter notícias tuas! Já estava me perguntando...

Pois é, viu no que deu nossa troca de comentários? Um bela baita discussão!

Como eu falei pro Cristiano´aí em cima, não sou contra essa tal de tabela do Parker em si. Prá ele e prá mais meia dúzia faz sentido. Mas prá nós, que além de amadores temos que calcular quanto podemos gastar numa garrafa, essa nota é muito abstrata. E só entre a gente: duvido que a maior parte dos pontuadores saiba exatamente o que está fazendo quando escreve seu 87.

Viva o critério BBB! Ou as tacinhas! Ou as estrelinhas!

E que venha logo o Pô, meu! em sua nova fase. Tô precisando de boas notícias:)

beijo grande.

Cristiano Orlandi disse...

Helô,

Com certeza o importante é a discussão! E obrigado a vcs (Beda e Nelson também) por fazerm dos seus blogs, forum para esta discussão.

Concordo que as pontuações de 1 a 5, seja via estrelas, taças etc e tal. São mais interessantes e masi fáceis para o público. Também concordo com o Nelson que o avaliador talvez não saiba extamente o que é 87, ou qual a diferença entre 87 e 86.

Uma boa semana a todos!

Bjs

Cristiano
Vivendo Vinhos
www.vivendovinhos.blogspot.com

Beda disse...

Helô,

fico feliz que te agradem os textos. Pena que não dá pra postar mais! O debate está aquecido e isto também me deixa satisfeito.

Quando ao fórum, não acompanho não! Quer me passar as coordenadas?? Quem sabe não dou pitaco na sua saia-justa?

Beijo,
B

Helô disse...

B, o endereçõ do fórum é http://br.groups.yahoo.com/group/enogastronomia-eventosdomike/

Clica em "entre nesse grupo" e depois cria uma ID Yahoo. Se já tiveres, deve funcionar direto.
Qualquer problema, me avisa que eu peço um socorro pro Mike.

A saia-justa pode ser encontrada no resumo 1944 do dia 9 de dezembro, quando postei a resposta para o Cesar, indicando teu post. O histórico tá no no final (mensagens nesse tópico).

"Pena que não dá pra postar mais". Nem me fala... Cheia de coisas pra fazer e querendo achar inspiração pra debate...

beijo.

Helô disse...

B, corrigindo: o resumo é o 1944, mas na busca o site procura as mensagens pelo número, não pelo resumo. Saia número 18805.

Beda disse...

Obrigado Helô! Beijo

Leonardo de Araújo disse...

Desde que ingressei ne Confraria Bacco Ubriaco passei a pontuar vinhos. Não é obrigatório, mas resolvi dedicar-me a entender como encontrar um critério.
É certo que cada confrade acabou criando um jeito subjetivo de pontuar, mas o fato é que, no final de uma noite com 4 a 7 taças diferentes, todos conseguem traduzir subjetivamente (impressões pessoais... aromas disso, sabor daquilo, gostei, não gostei,...)e objetivamente (nota) o que acharam.
É verdade que, ao final, fazemos uma média das notas que vai para o site da confraria. De fato, acaba que a média não reflete o pensamento de cada um, muito menos de todos, mas de qualquer forma cria uma identidade para a confraria e um ranking da Bacco Ubriaco.
Em meu blog vivaovinho.blogspot.com , contudo coloco minhas notas pessoais. O fato de eu descrever o que penso de um vinho me ajuda muito a 1) de memória saber o que provei e o que senti (tomar notas, resumir, resenhar, .. são bons métodos de estudo) e 2) buscar nas anotações passadas elementos que esqueci e posso orientar minhas compras para a adega.
Um último elemento-chave é a comunicação e a troca de idéias com amantes do vinho do Brasil e do mundo.
Em minhas anotações, procuro descrever por comparação com outras coisas de nossa cultura (flores, frutas, objetos aromáticos, produtos industrializados) os aromas. É o único jeito de contar para alguém (meu pai, por exemplo) o que provei. De que adiantaria eu dizer que um vinho tem aroma de cupuaçu para alguém que nunca saiu do Rio Grande do Sul? Agora, se eu disser que tem aroma de abacaxi bem maduro, o número de pessoas que vai ter provado um abacaxi "doção" na vida cresceu muito e minha capacidade de comunicar aumentou.
As impressões tanto objetivas (nota) como subjetivas são pessoais e revelam elementos sobre a cultura do avaliador.
Só vejo beleza nisso.
A necessidade de polemizar vem do culto a certos avaliadores. Cabe a nós, interessados no assunto, esclarecermos aos amigos que gostam de vinho que são apenas referências, dicas, uma segunda opinião para comparar com as nossas próprias anotações.
Não deixarei de rankear de 0 a 100 porque me ajuda a não comprar de novo o que não gosto e a rechear minha adega com o que gosto.
Não deixarei de comunicar com enófilos de toda parte porque o vinho tem trazido inúmeras pessoas boas ao meu convívio.
Só entrei nesse assunto para dizer que não tem muita polêmica, não. Os radicais estão errados. Ter um método sempre ajuda, seja ele qual for.
A única coisa que não serve é cultuar certos avaliadores como se fossem o próprio Bacco.
Não cabe pregar o fim dos adjetivos, nem dos substantivos, nem das notas numéricas. “Que tudo se some.” He he he.
Publicarei uma versão deste texto em meu blog, para repercutir também o assunto.

Brindes
Leonardo
vivaovinho.blogspot.com

Helô disse...

Prezado Leonardo, começando com o que eu concordo: radicalismo não é mesmo uma boa, ter um método sempre ajuda e somar é sempre melhor do que subtrair.

Isso declarado, algumas considerações. Assinei um mea culpa no post do Bernardo “O que o Bob diz”. Reconheço que falei sobre o que não tinha conhecimento. A maneira como ele avalia (grupos de vinhos semelhantes, degustação às cegas, redegustação, etc) é muito detalhada e representa um determinado vinho dentro de um contexto.

Mas continuo pensando que essas avaliações fazem sentido para um público restrito.

E acho que o assunto é, sim, polêmico e merece um debate amplo. O que não impede que cada um entenda o vinho da maneira que lhe faz mais sentido.

Um abraço e muito obrigada pela participação.