quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Chutando minhas próprias canelas

Todo mundo gosta de listas, que eu sei, mas tem um tipo que em geral me dá urticária. São as famosas "how to...". Mas como às vezes elas realmente ensinam algo, eu leio. Ou pelo menos passeio meus olhos por elas. E de vez em quando, tropeço numa boa.

O fato de eu ter escrito esse minúsculo parágrafo umas 4 vezes diz bem da importância dessa lista para mim. Então, antes que eu apague tudo e comece tudo de novo, ei-la.

10 passos para escrever melhor

  1. Escreva.
  2. Escreva mais.
  3. Escreva mais ainda.
  4. Escreva ainda mais do que isso.
  5. Escreva quando você não quiser.
  6. Escreva quando quiser.
  7. Escreva quando você tiver algo para dizer.
  8. Escreva quando não tiver.
  9. Escreva todos os dias.
  10. Continue escrevendo.
Original aqui. Thanks, Brian.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

A suposta solidão tem suas vantagens

Uma das coisas boas de morar sozinha é que o pouquinho que cozinho para mim rende pelo menos duas refeições. Não é vantagem para me vangloriar, imaginem. Logo eu que cresci com irmãs, cercada de tios, avós, primos e mais primos e tinha certeza que teria uma grande família ao meu redor a vida inteira.

Uma coisa é o que a gente quer e outra o que pode ter. E o que posso ter agora é o direito de comprar algumas coisas que dificilmente poderia comprar se tivesse a tão sonhada família e fazer para mim coisas que alimentam meu corpo e minha alma.

Como essa janta, que foi também o almoço do dia seguinte.

Costelinha de porco temperada pelo Celso da Essência da Terra, cuja receita lembra a que meu pai fazia para temperar galeto, assada no forno do fogão à lenha. Na mesma forma acrescentei, depois de um pré-cozimento, aipim, cenoura, cebola e alho - o básico e o poró. Complementos apenas com o básico-dos-básicos: sal, azeite de oliva e pimenta do reino.

O resultado é esse aí embaixo.



(Qualquer problema de foco NÃO deve ser creditado ao vinho - a câmera é que não ajuda!)

E no dia seguinte, sem o glamour das velas nem do brilho de comida recém feita mas com quase o mesmo sabor, eis meu almoço!



E sim, eu uso aquele aparelhinho para tirar o ar da garrafa. O melhor método, sei, é trocar o que sobrou para uma garrafa de 375ml. Mas, como aqui vinho bom não dura 24 horas, acho que não vale o trabalho.

E já que estamos falando de vinho: eu nada sabia desse Aventura Andina Pinot Noir a não ser que essa garrafa me sorria cada vez que eu olhava para ela. Intuição feminina? Digam o que quiserem, mas acho que foi isso mesmo.

Pena que desse sabor não tem mais...

terça-feira, 28 de julho de 2009

Garibaldi, 25 de julho. 10h da manhã. Temperatura: -1,5°












E mais tarde, um gostoso pinot noir para aquecer a alma.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Ter ou não ter é quase a mesma coisa...


Tão sem graça de bater na mesma tecla, sempre...

O fato é que agora eu tenho conexão - ou não, depende da conjunção astral e do biorrtimo das ondas 3G da Claro. E isso, certamente, não é inspirador.

Segue o baile.
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Ainda viajando em busca da barriga quentinha, um pouco por nostalgia e muito pelo frio mesmo. Dá um belo dum trabalho chegar em casa, já escuro, e acender o fogão a lenha. Tenho melhorado minha técnica, o que significa menos tempo até o fogo "pegar". Mas não tenho pressa. Enquanto estou sentada alimentando o dito cujo, vou também alimentando a pança com pinhão na chapa.

Outro dia, frio como tem sido os dias e noites desde o início de junho, deu saudade de mais uma sopa que minha vó fazia tão bem. Dessa eu tenho diversas receitas (os blogs de culinária estão cheios delas), mas não a que era feita nessa cozinha. Não importa muito, porque pelo próprio espírito dessa sopa, ela varia um pouco conforme a estação - e muito de acordo com o que se tem na geladeira e na despensa. Minestrone. Santa creazione italiana!

Pois a saudade do minestrone da minha vó não veio só pelo frio. Veio - e muito - pela leitura do comentário no post anterior de uma amiga de alma, que não só me elogia até me encabular como também lê nas minhas entrelinhas e não desiste de alimentar meu espírito.

Clara, companheira de saudades de avós e fogões, esse post é teu!

Pois voltando ao fogão: uma panela com um pouco de feijão sem quase nada de tempero que estava congelado; uma panela com o soffritto - cebola, alho, vagem, cenoura e pedaços de culatello light (light mas saboroso), um pouco de azeite de oliva - colocada longe do fogo, para ir fritando bem devagar, sem pressa; e uma panela com o caldo de carne, também sobra de uma sopa anterior, também congelado. Caldo e soffritto na panela do feijão, foi só colocar o que tinha sobrado do delicioso taglierine da Justina, corrigir o sal e acrescentar um pouco de pimenta.

Para acompanhar, seguindo a indicação da minha bíblia de combinações, eu precisava de um sangiovese (ai, esses nomes de vinhos italianos, tão cheios de vogais!). A tentação de beber um original, mesmo que um degrau acima na minha escala financeira, foi maior, fazer o que, e abri um Alido Sangiovese di Toscana Renzo Masi.

Acho que vou deixar as fotos falarem por mim.


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Sugestão de leitura

A Itália de Jamie, que faz a gente viajar e só aumenta a saudade...

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Sobre viagens e barriga quentinha



Minha querida amiga Enoi, daquelas que nos fazem colocar o dedo na consciência porque não cultivamos nossas amizades como elas merecem, companheira de aventuras culinárias (aprendi com ela uma entrada de alho poró com azeite extra virgem e pimenta rosa, deliciosa), de cálices de espumantes e palavras cruzadas, minha amiga Enoí está morando na Terrinha, mais precisamente em Aveiro, onde está fazendo doutorado.


Pois a Enoí, que eu tenho tentado transformar em correspondente de vinhos BBB, inaugurou o blog "longe de casa?" onde ela fala de viagens, não apenas das físicas, como a que a levou a Portugal, mas também das viagens sentimentais. E foi através das lembranças da Enoí que eu viajei de volta à minha infância, numa viagem em busca de uma barriga quentinha.

Estou em Garibaldi, também na minha viagem. A cozinha é menor do que a atual, mas a mim ela parecia muito grande. Minha avó prepara a sopa. Uma entre muitos filhos numa família pobre de imigrantes italianos, ela sabia fazer a mágica da sopa de pedra. Um belo brodo, poucos e simples ingredientes, muito carinho, e surgia a sopa da minha infância: il sfregolotti. Fecho os olhos e vejo as mãos marcadas, enrugadas e lindas da minha avó sendo esfregadas, uma contra a outra, e delas caindo os fiapos da massa dentro do caldo borbulhante.

Eu tentei, juro que tentei, mas minha sopa não chegou nem perto daquela da minha lembrança. Não, tenho certeza que não é nostalgia: a sopa da minha avó era diferente e sim, muito melhor. Mas o objetivo principal eu consegui: aqueci minha pancinha e minha alma.

E, claro, uma viagem à minha infância nunca está completa sem vinho. A garrafa que abri me foi presenteada por nosso vizinho: Don Fausto, um cabernet sauvignon feito por um pequeno vinicultor no interior de Garibaldi. Mesmo que essa informação provoque olhares críticos, e mesmo admitindo que essa garrafa não está na minha lista, o Don Fausto, na sua simplicidade e franqueza, completou minha viagem.

Melhor, só seu eu tivesse acertado a sopa. Vou atrás da receita.

Foto original aqui.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Quem será o Melhor Sommelier Amador do Mundo?

Não, ainda não tenho a minha tão esperCor do textoada conexão. E sim, já estou com a Brasil Telecom por um fio: com Oi ou sem Oi a bagunça continua a mesma. Quando na sexta-feira passada recebi a ligação e a funcionária se identificou como sendo da Oi, interrompi na hora: Oba, estás me ligando para combinar a instalação, né?

Que engano... Era a quarta - QUARTA! - ligação para dizer que meu nome estava na lista de espera e que "a qualquer momento estaremos liberando o sinal"... Montei no porco e soltei os cachorros!

E continuo esperando....

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Eis aqui um post de estilo diferente, com uma cara "fria" de trabalho profissional. Mas como a tradução já estava feita, achei que merecia ser passada adiante.
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Academy of Food and Wine UK Sommelier of the Year Virtual Competition 2009

A revista Decanter, em parceria com a Academy of Food and Wine, lançou uma competição virtual para escolher o melhor Sommelier Amador do mundo. Para que você possa testar seus conhecimentos, traduzimos as 25 perguntas. E se você quiser participar da competição, visite http://www.decanter.com/press/sommelier-comp.php, preencha o questionário e os dados pessoais até o dia 30 de maio. A melhor pontuação garante ao felizardo uma caixa de Champagne Piper-Heidsieck.

1. Nomeie três Distritos (não wards/as menores entidades geográficas) da Região Litorânea da África do Sul (3 pontos)

2. Nomeie cinco sub AVAs (Áreas Americanas de Viticultura) do Napa Valley, Califórnia. (5 pontos)

3. Em que país encontram-se as seguintes regiões viníferas: Donauland, Neusiedlersee e Traisental? (2 pontos)

4. Qual o vinho cujo crédito da criação é de Max Schubert? (2 pontos)

5. Informe o nome da Indicação Geográfica das seguintes vinícolas australianas: (10 pontos)
a) Grant Burge
b) Jim Barry
c) Bass Philipp
d) Shaw + Smith
e) Majella
f) Jasper Hill
g) Moss Wood
h) Stonier
i) Mitolo
j) Tyrell’s

6. Em qual DOCG encontra-se a povoação de “La Morra”? (2 pontos)

7. Ca’Marcanda está localizada numa propriedade em Bolgheri; quem é o famoso produtor de vinhos italianos por trás dela? (2 pontos)

8. Qual é a uva da DOCG Montefalco Sagrantino? Qual a sua região de origem? (4 pontos – identifique a uva e a região)

9. Nomeie os cinco châteaux de Saint-Julien em Bordeaux classificados como “2nd Growth”? 5 pontos

10. Em quais Apellations os seguintes produtores ou propriedades estão situados? (10 pontos)
a) Marcel Deiss
b) Château des Jacques
c) Vincent Dauvissat
d) Larmandier-Bernier
e) Domaine de La Janasse
f) Le Pin
g) Château du Cèdre
h) Mas Amiel
i) Clos de Tart
j) Domaine Huet

11. Em qual DO ou DOC estão situadas as seguintes propriedades? (5 pontos)
a) Gonzalez-Byass
b) Finca Allende
c) Clos Erasmus
d) Alion
e) Artadi

12. Com qual uva a vinícola alemã Meyer-Nakel ganhou um Prêmio Internacional na competição Decanter World Wine Awards de 2008 e em que região ela é produzida? (4 pontos – nomeie a uva e a região)

13. Qual propriedade da Nova Zelândia produz os famosos Pinot Noir Block 3 e Block 5 e em qual região eles são produzidos? (4 pontos – informe produtor e região)

14. O que são: Geneva Double Curtain, Te Kauwhata Two Tier e VSP? (3 pontos)

15. O que é TCA? (2 pontos)

16. Em qual país “Muscat de Samos” é produzido? (2 pontos)

17. O que significa “LBV”? (2 pontos)

18. Informe os países das seguintes propriedades ou produtores: (10 pontos)
a) Antiyal
b) Clos de Los Siete
c) Inniskillin
d) Geravassiliou
e) Keo
f) Boyar
g) Cono Sur
h) Luis Pato
i) Georg Brauer
j) Nikolaihof

19. Qual é o melhor solo do Jerez (região Sherry)? (2 pontos)

20. Quem possui um hotel/restaurante com 2 estrelas no Michelin e uma propriedade vinícola na California?

21. Que tipo de vinho é um “Rainwater”?

22. Nomeie a região de cada um dos seguintes Single Malt Whiskys: (2 pontos)
a) Macallan
b) Ardbeg
c) Springbank
d) Glenmorangie
e) Auchentoshan

23. Que tipo de bebida são os seguintes produtos e qual a origem? (10 pontos – informe tipo e país para cada um)
a) Grey Goose
b) Tanqueray
c) Linie
d) Appleton
e) Jose Cuervo

24. O que o valor de pH mede no vinho? (1 ponto)

25. Quais são os ingredientes da Margarita? (3 pontos)

Sem googlar nem consultar meus adorados The Oxford Companion to Wine nem o Atlas do Vinho, chegaria no máximo a 12 pontos...

sábado, 4 de abril de 2009

Árvores, janelas e vinhos

Na falta de conexão para me inspirar... fotos!

O céu de Garibaldi, praticamente sem poluição, é muito mais azul do que o céu de Porto Alegre. Mesmo com uma câmera precária como a minha, basta enquadrar uma das tantas árvores floridas que encontro caminhando pelas ruas e o resultado é esse.


Essa é a janela da sala de estar que dá para o quintal. As bergamotas ainda não aparecem.



A vista de uma das janelas do meu quarto. Bem ao fundo aparece uma das casas da família Peterlongo.



Da mesma janela, uma manhã de nevoeiro. Não, não é foto do inverno passado, apenas do mês passado. Coisas de Serra Gaúcha.



Fim de tarde quente com um dos meus vinhos brancos favoritos, o Pizzato Chardonnay. Essa garrafa é da safra 2006, ainda deliciosa. Figos do nosso quintal, devidamente provados pelos passarinhos. 


Perdida entre tantas, achei essa foto, tirada em outubro em Porto Alegre. Também de um vinho branco delicioso, provado uma única vez, mas suficiente para deixar um gosto de quero-mais. Colomé Torrontés, um daqueles vinhos que dá um dó sem tamanho quando a garrafa termina. 


quarta-feira, 1 de abril de 2009

Da série "Jantarzinho básico"


escrito nem lembro quando...
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Essa coisa de não ter conexão em casa está me deixando bem chateada... A tal ponto que me pergunto se minha inspiração depende de conexão, pois poderia muito bem estar escrevendo todas as coisas sobre as quais gostaria de falar assim, desconectada, e depois usar uma conexão emprestada e publicar as postagens.

O que quer que seja, o fato é que estou chateada. A novela promete se arrastar. Ou eu jogo a toalha e contrato um serviço 3G (pagando para receber velocidade de 1Mega,  mas assim que atingir um volume de download de 1GB – o que não é grande coisa para quem ouve rádio, receber 128Kbps até a próxima fatura) ou me sujeito a esperar pela Brasil Telecom liberar uma maledetta porta!

E antes que eu me chateie mais ainda, segue uma postagem que até já ficou fora de estação... O outono chegou de sopetão e hoje a noite promete ser adequada a uma sopa de capeleti, nada a ver com a foto aí de baixo!


Essa postagem e essa foto homenageiam um nome.  “O que há, pois, num nome?” 

Nada de especial, mas também muito. Um mesmo nome que por acaso acontece com frequencia na minha vida, um mesmo nome para duas pessoas: o Ricardo que me deu o Diário do Vinho (que me força a deixar a preguiça de lado e anotar para aprender mais) e que já faz parte da nossa família e o Ricardo que eu não conheço, que me visita seguido (pelo menos quando eu escrevo!) e que sempre deixa palavras carinhosas nos comentários.

Um jantarzinho básico, ao final de um dia quente – mesmo Garibaldi tem seus dias quentes.

No cálice, um espumante que eu ainda não conhecia. O Quinta Don Bonifacio Brut 2007, produzido pela vinícola de mesmo nome de Caxias do Sul, é um espumante gostoso, alegre e refrescante. E BBB: custa ao redor de R$20. Ricardo, anotei tudo o que consegui (o que não é muito, considerando minha capacidade olfativa...)

No prato, o taglierini da “Delícias Caseiras Justina”, a padaria que fecha aos domingos e feriados. Ricardo, por enquanto foi assim, ó: cebola picada e refogada, pedaços de tomatinho delicioso que eu encontrei na fruteira (não é tomate cereja), lascas de parmesão e folhinhas de manjericão da horta, tudo regado com um fio de azeite e pimenta do reino moída na hora. Nada de especial, mas era mesmo prum jantarzinho básico de meio de semana.

Acreditem em mim: o taglierine estava muito mais bonito do que nessa foto.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Sobre figos, fogão a lenha, pizza - e vinho!

escrito sábado, 28/02

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Conta a lenda que quando a Mac Donald’s conseguiu finalmente abrir sua primeira loja na Italia, os nativos logo decidiram pela sua versão de como chamar fast food em italiano: mangia e fuggi. Não é a toa que vem também dos italianos uma definição de como melhor viver: o movimento (que os responsáveis dizem não ser um) chamado Cittá Slow. Cidade preguiçosa.

Algo como Garibaldi. Hoje no final da tarde passei na padaria que fica aqui perto de casa – e que é uma das melhores da cidade. Detalhe: quando a regra diz que dono de padaria não sabe o que é domingo ou feriado, essa padaria não abre aos domingos e muito menos nos feriados. De que adianta plantar se nunca colhemos? Eles plantaram um pão delicioso e uma massa caseira que suplica por um ragu de ossobuco daqueles que levam pelo menos duas horas para cozinhar. Nada mais justo que agora colham os frutos da confiança de uma clientela fiel  que não se incomoda de planejar as compras.

Enfim, passei na padaria e comprei meio quilo de taglierini (ainda não decidi como preparar) e outro tanto da massa que eles usam para fazer o pão e as pizzas. Poderia ter comprado a pizza pronta, mas seguindo a filosofia de que uma boa comida merece todo o tempo que leva para prepará-la, decidi que assaria minha própria pizza. No fogão a lenha da minha avó.

E já que teria todo o trabalho de acender o fogo e esperar o forno aquecer, aproveitei os figos colhidos hoje (é necessário ser pontual na colheita, se não os perco para as abelhas e os passarinhos) e seguindo instruções do meu primo Lucas, com quem divido o amor por Garibaldi e por nossa casa em particular, preparei uma calda e nela os coloquei a cozinhar preguiçosamente.

Sei, estou torturando vocês, mas agüentem firme,  isso é só o começo. Enquanto preparo a pizza - uma base de tomates pelados (adoro essa expressão), muzzarela picada, cebola fatiada bem fininha, lascas de aliche, tudo salpicado com pimenta do reino moída na hora e tomilho fresco da horta -  o perfume dos figos vai lentamente tomando conta da cozinha, trazendo memórias das passas que minha mãe preparava com tanto carinho, por dias a fio secando ao sol. E enquanto espero que a pizza preguiçosamente asse, vou escrevendo esse post no Word, já que conexão ainda é um mero projeto. E enquanto escrevo, deixo rodar o DVD do show "One more car, one more rider" do Eric Clapton. Quem não viu, não tem a menor idéia do que está perdendo. O músico mais jovem deve ter lá pelos 45 anos, eles não ficam devendo nada em energia e esbanjam qualidade.

Para completar o quadro, que nenhuma refeição italiana é completa sem o bicchiere di vino, me delicio com um refrescante Moscatel da Marco Luigi. Contar como essa garrafa chegou às minhas mãos vai levar mais tempo do que disponho (que agora o perfume dos figos foi substituído pelo cheirinho da pizza quase pronta), mas faço questão de dar o crédito a Cesar. Quer dizer, ao meu querido amigo João Filipe. É presente dele, um presente perfeito para um final de dia quente.  Eu que não sou muito de bebidas adocicadas, me rendo à leveza desse moscatel (8%), ao seu frescor e acidez no ponto exato. E não estou nem aí se alguém disser que moscatel não combina com pizza (que aliás está mais para foccacia do que pizza, preciso trazer minhas formas de Porto Alegre). Para mim, está perfeito. Grazzie, João!

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Não mudei de planeta...

...mas estou mudando de cidade! 

Uma cidade pequena, ainda segura, encravada nas montanhas, rodeada por parreirais. Garibaldi, claro. A base de Porto Alegre não será desativada, até porque ainda tenho um filhote no ninho. Mas é da tranquilidade do interior e da qualidade da alimentação com forte influência italiana (incluindo vinho todos os dias) que eu me alimentarei a partir de agora.


Foto original aqui.

Tenho me dedicado a colocar em ordem minha horta de ervas e uma adega cheia de lindas garrafas, algumas delas verdadeiras raridades. Mas sobre isso eu falo mais adiante, quando tiver conexão. E eu que achava que esse seria um problema fácil de resolver!

Essa é uma das poucas desvantagens do interior: provedores de internet. Começando com a falta de opção para ADSL (Brasil Telecom é a única - sem comentários), passando pelo valor absurdo cobrado por dois provedores via rádio e terminando na por enquanto arapuca armada pelas operadoras de 3G, tenho andado em círculos sem conseguir decidir qual a menos ruim das opções...

Aguardem notícias!

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Face ruborizada...

E nem é de vinho!

Meu querido amigo João Filipe não apenas me presenteou com uma indicação ao "One Lovely Blog Award" como justificou a escolha com palavras que, por mais que eu me esforce, não conseguirei retribuir. O João e eu dividimos mais do que a paixão pelo vinho: dividimos a indignação com as injustiças em geral e com Brasília em particular, dividimos o gosto pela música, dividimos a emoção de ver coisas belas sendo feitas com carinho e dedicação. E eu certamente divido o ombro dele com outros amigos.



E agora me toca a tarefa de passar o presente adiante, indicando sete pessoas. Vou quebrar essa regra (eu adoro quebrar regras!) e não uma, mas duas vezes. Uma, que sete é conta de mentiroso, e a minha lista tem nove indicações. E duas, que elas vão além do vinho - afinal, esse é um blog que também fala de panelas e livros.

Nos cálices:
  • Glupt! - o Estadão comprou o passe do Luiz, mas eu continuo chamando o blog de Glupt!. Até porque a Frederica continua sendo a musa das linhas que o Luiz traça: muitas carregadas de um bom humor raro de encontrar, às vezes plenas de crítica com acidez presente (como num bom vinho branco), outras tantas cheias de indignação. Mas sempre com inteligência. Com vinho, arte e música (e a Frederica!), o Glupt! é completo.
  • Peripécias Palacescas - quando comecei a rabiscar coisas por aqui, não imaginava que encontraria pessoas que me dariam mais do que bons momentos de leitura: me dariam sede de conhecimento. O Bernardo é daquelas raras criaturas que primam pela coerência e pela consistência. Já trocamos alguns rabiscos, e eu só lamento que ele não tenha mais tempo para se dedicar ao blog.
  • Pisando em uvas - O Eduardo é o autor dos melhores textos sobre vinhos que já li. "Enologia para poetas" é o sub-título do blog, e poesia em prosa é o que ele oferece. Paixão à primeira leitura, passei por todos os posts, do primeiro ao último. Difícil escolher o melhor. Entre Mea Culpa e Isabel, niagara e os carmina burana, fico com todos. Eduardo, minha campanha continua!
  • Wine Broker - o Ruben é um doce de argentino (é, acreditem, eles existem!) que só tem como defeito ser torcedor do Boca. Mas como para alguém das plagas gaúchas torcer para qualquer time argentino é defeito inafiançável, eu dou um desconto. O Wine Broker é também um pouco "panelas & livros" e eu me delicio com as imagens de viagens que ele publica.

Na cozinha, eu tenho uma única indicação:

  • Kafka na praia Não que outros blogs de culinária não sejam tão bons quanto, mas a Karen, além de ter um gosto parecido com o meu, transmite serenidade. Algo herdado certamente do Japão. Não tenho sido uma leitora assídua, que coisa, mas sempre que preciso de inspiração, o Kafka é minha praia acolhedora.

Nos livros, minha indicação para quem me inspira a ler sempre mais:

  • E você com isso? não pode ser chamado de "lovely", porque o Marcelo bota o dedo na ferida, com classe e coerência como poucos. Como ele consegue produzir tanto é uma incógnita para mim, mas que bom que seja assim. O Brasil precisa de muitos Marcelos a nos perguntar, todos os dias, o que temos a ver com tudo o que está aí. Leitura imprescindível.
  • Pô, meu! - Nelson um dia resolveu escrever para seus futuros netos, como uma máquina do tempo para contar sobre o mundo de hoje. Desde música a Fórmula 1, passando por futebol e até política, o Nélson solta o verbo com muita inteligência e bom humor. Sem contar que dividimos o gosto por vinhos BBB.
  • Patifaria - a Marcia é a única pessoa no mundo que seria capaz de me fazer ver aquele aborto da natureza chamado Big Brother, só para entender melhor os comentários que ela faz. Bom humor e crítica picante como um bom curry. E quando ela resolve analisar o relatório do Sitemeter? Gargalhadas garantidas.

E fechando a lista com chave de ouro:

  • Veja o que eu vi. Minha irmã que mora na Alemanha tem uma teoria que diz que almas boas atraem almas boas - e é o que a tem mantido "alive and kicking" num país que tem uma cultura tão diferente da nossa. A Clarice é a minha alma boa, que entrou pela minha porta, puxou a cadeira para uma prosa e não saiu mais. Ela cuida dos gatos, dos cães e das tristezas dos amigos. Ela cresceu bebendo vinho doce, fazendo polenta e lambuzando o beiço com figada. Ela encontra coisas nesse mundão da internet que até o capeta duvida. Ela é o meu compromisso de cultivar minhas amizades e de não deixar para amanhã para dizer "muito obrigada" a quem queremos bem. Clara, muito obrigada.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Dois tintos e três livros

Dois tintos...


Esta é a garrafa sobre a qual eu fiquei devendo comentários. A Angheben é uma pequena vinícola, de origem familiar como quase todas do Vale dos Vinhedos, cujos vinhedos estão situados em Encruzilhada do Sul, uma das novas zonas de viticultura no Rio Grande do Sul.

Os vinhos feitos com Touriga Nacional tem cor escura, como esse. Taninos e acidez balanceados, acompanhou muito bem um medalhão de entrecot grelhado com alho e pimenta do reino.

E ainda sobre a Angheben: o Luiz anda fazendo uma baita propaganda do Barbera 2007, "a primeira epifania com um vinho brasileiro", conforme ele declarou no forum da Jancis Robinson. Acho que vou ter que olhar esse vinho mais de perto!




Eu tenho um carinho especial pela Bodega del Fin del Mundo. Provei a primeira garrafa há quase um ano: Ventus tinto, um gostoso corte de merlot, malbec e cabernet sauvignon. Um vinho que me carregou por uma viagem virtual à Patagonia e a seus ventos eternos.

E agora voltei.

Tenho poucos parâmetros para comparar os vinhos que bebo e, em se tratando de pinot noir, tenho menos ainda. Não importa. Esse vinho, de um vermelho rubi brilhante e sabor macio, que amadurece por 12 meses em barris de carvalho, esse vinho conta a estória das uvas do fim do mundo.

Pena que não se enquadre como BBB.

...e três livros.

Eu tinha prometido a mim mesma me comportar, mas falhei redondamente. Três novos e lindos livros - acompanhados das respectivas faturas do cartão. Fazer o que...


Há muito tempo que eu namorava esse livro. Fuçando na Amazon USA e UK para comparar preços, achei o que seriam dois livros diferentes. Na dúvida, mandei um email para o endereço de contato no site da Jancis. Surpresa - recebi resposta quase que imediatamente e escrita pela própria! Ela recomendava que eu esperasse até novembro, quando a nova edição seria lançada. Eu consegui esperar até dezembro...

Lindo livro, texto em linguagem acessível acompanhado de fotos lindas. Acabamento de primeira. Para quem lê em inglês, imperdível. Vale cada centavo.

The Complete Idiot's Guide to Starting and Running a Winery

Esse é o livro do impulso. Li um post no Fermentation e decidi na hora que compraria. Não que eu tenha planos de montar uma vinícola, quem me dera... Mas eu tenho o objetivo sério de aprender tanto quanto possível sobre vinhos - e entender como é o funcionamento detalhado de uma vinícola se enquadra perfeitamente.

Aprendi uma outra coisa com esse livro que nem nos meus mais delirantes sonhos poderia imaginar: o nosso não é o país campeão de burocracia. Acreditem, o negócio do vinho (e do álcool como bebida) é excessiva e irritantemente burocrático nos Estados Unidos. Se nossos zelosos funcionários em Brasília tiverem acesso a esse livro, que os céus tenham piedade de nós!


Outro namoro longo. Acompanhei o preço nas livrarias e pela internet, comparei preço do original e da edição brasileira. Entre subidas e descidas passaram-se alguns meses. Finalmente respirei fundo e saquei o cartão. E conclui que é uma das melhores aquisições que fiz.

O livro é lindo. É grande, pesado, uma capa super caprichada; as páginas são grossas, cheias de fotos lindas. Leitura de qualidade garantida por muito tempo.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Momento bobagem

Não sei de vocês, mas eu tava precisando dar uma boa risada =)

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Pensamentos avulsos

Retorno pagando uma conta há muito pendurada. Prometi, nem lembro quando, uma foto do nosso famoso por do sol no Guaíba pra Clarice. Clara, o pagamento é parcial, que a foto eu tirei do terraço aqui de casa. Continuo devendo.

Eu gosto de música, e gosto de músicas que me lembram coisas boas, cujas letras conseguem resumir o que sinto. Às vezes até músicas ditas bregas, que atire a primeira pedra quem nunca curtiu uma dor de cotovelo nem teve "a minha música". Como essa, que resume o dia de sol aí de cima e que diz um pouco de como estou agora, que o pior já passou. E vai dedicada ao João Filipe, que sempre consegue escolher "a minha música" no momento em que preciso.


Tá, tá, eu sei, o figurino é de atirar pedra, mas lembrem-se: that 70´s show!


Playing for Change é um projeto comunitário de um grupo de artistas que usam a música como ferramenta de união ao redor do mundo, fazendo coisas legais como construir e manter uma escola de música numa região carente na África do Sul.

Eles gravaram esse vídeo com com músicos e artistas de rua de diversos lugares do mundo. A música eu dedico a vocês. Obrigada por estarem comigo quando eu precisei. Beijos a todos.


sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Fechado para balanço.

Esse post foi iniciado umas quatro vezes nas duas últimas semanas. Era para falar de um vinho que me encantou, oferecido por uma pessoa muito querida. Mas ele vai ter que esperar.

Final de ano sempre foi época especial para mim. Mesmo em anos difíceis, eu sempre encontro razões para celebrar - nem que seja para dizer a mim mesma "o pior já passou". Então eu respiro fundo e recarrego as energias com abraços, muitos abraços das pessoas que fazem parte de mim.

Mas nesse ano o pior não passou...

Não quero falar sobre dores e não consigo falar sobre meus vinhos, nem sobre minhas panelas, nem sobre meus livros.

Preciso de um tempo. Quando o pior tiver passado, eu volto.

sábado, 13 de dezembro de 2008

Da série "Um vinho, uma estória"

Foi num verão quente e seco, pelos meus vinte e poucos anos, que descobri a delícia refrescante de beber um vinho branco geladinho no final da tarde. O vinho que me ensinou isso foi um Granja União Riesling, então produzido pela Vinícola Riograndense.

Do sabor o que lembro é que era seco. Mas eu fecho os olhos e me vejo comodamente sentada na sacada, livro na mão e o balde de gelo com a garrafa ao meu lado - e quase posso sentir o frescor do cálice na minha mão. Não era de estranhar que a lembrança me fizesse sentir desejos de saborear um Riesling novamente.

Busquei o Cono Sur por sugestão do João Filipe e encontrei o Doña Isadora da Cosiño Macul. A vinícola chilena, uma das poucas a permanecer nas mãos da família fundadora, tem uma história bonita de ler. Luis Cosiño, filho do fundador, viajou para Europa em busca de mudas para a fazenda Macul em 1860, exatamente antes da filoxera começar a destruição dos parreirais do Velho Mundo. Como nas histórias de algumas casas francesas, Luis morreu jovem e a viúva, Isadora, assumiu o controle da vinícola.

A Cosiño Macul está localizada na área do Alto Maipo e as uvas Riesling vem de dois vinhedos aos pés dos Andes (Macul e Buin), cujas características são excelentes para a produção de castas brancas. O site é gostoso de ler, com muita informação e detalhes técnicos.

E sobre o vinho?

Eu queria ser reapresentada a um Riesling com as características que essa uva empresta: aromas minerais, de flores e mel. Mas esse branco que eu degustei num dia muito quente tem, conforme o enólogo, aromas e sabores de maçã, apricô, erva doce e casca de limão. Não reconheci nem uns nem outros. O que senti foi uma acidez gostosa e um toquezinho de fruta. Deu curiosidade de conhecer o Riesling Reserva, mas acredito que ele deva custar bem mais do que os R$27 que paguei por essa garrafa.

Sigo buscando o Cono Sur.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Sobre pétalas de rosas e taninos atléticos

Eu tenho, assumida e comprovadamente, deficiência olfativa. Nas piores épocas (ultimamente raras, ainda bem), consigo distinguir apenas o doce do salgado, o azedo do amargo. Os sabores, enfim. Nada de olfato.

Na maior parte do tempo, sinto aromas que não reconheço. É como tentar distinguir, numa escala entre preto e branco, exatamente onde começa o cinza. Um pouco triste, mas me conformo sabendo que existem casos bem piores que o meu. E me esforço para melhorar, cheirando frutas e verduras no supermercado, as ervas nos meus vasos, sabonetes na farmácia, a comida no meu prato. Mas não é sobre isso que quero falar. É sobre vinho. E sobre descrições de vinho.

Eis-me aqui, a perfeita iniciante, com deficiência olfativa e orçamento muito apertado, ávida por aprendizado. Eu leio livros técnicos, leio revistas especializadas, leio blogs. Leio tudo que me passa pelos olhos com a palavra vinho incluída. Depois de um certo tempo, a maioria das críticas e opiniões, com suas extensas e criativas descrições de aromas, começam a parecer muito semelhantes e até alguém na minha situação acaba decorando que o aroma da baunilha vem da madeira, mesmo sem senti-lo.

Muito provavelmente devido à minha deficiência, não são essas descrições que me cativam. A raposa e as uvas, vocês devem estar pensando. Mas eu quero saber mais de um vinho do que a lista de seus aromas. Até porque, um pouco como as notas do oráculo, aroma é uma questão muito pessoal e pouco objetiva. E principalmente porque eu acredito que vinho é muito mais do que a soma de seus aromas.

As descrições que me cativam são aquelas que contam uma estória. Ou a história, se preferirem. É através dessas que eu bebo os vinhos que não posso comprar. É como ler um guia de viagem que fala de tradições e vidas, de pessoas e amores, que não se resume a listar endereços de hotéis e preços de restaurantes.

Falar assim de grandes vinhos não deve ser difícil. Mas o humilde e honesto vinho do dia-a-dia, aquele que eu posso servir à minha mesa, esse também tem história para contar. É esse o vinho que me acompanha quando estou sozinha, é com esse vinho que divido as alegrias de uma mesa com amigos e boa comida. Ele me aquece no inverno, me refresca no verão. E me consola.

Eu gostaria de encontrar mais descrições que contem sobre ele. Da minha parte, eu tento. E se o sorriso que o vinho me trouxe permanecer depois de ter terminado de escrever, eu sei que atingi meu objetivo.


Foto original aqui.

Sugestão de leitura

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Pontuar ou não pontuar...

Há um mês atrás, quando postei aquela frase fabulosa sobre champanhe x cerveja, o Nelson (do Pô, meu!, um dos meus blogs favoritos, que foi mandado para o lixo cibernético por uma criatura mal humorada) escreveu um comentário que rendeu uma boa conversa e algumas alterações nos meus marcadores sobre preços de vinhos: "O estado da arte é achar bons vinhos (tem que mensurar né?) lá entre 85 e 90 pontos na escala do Parker por até trintinha."


Desde então venho pensando e escrevendo sobre isso mentalmente, mas nunca consegui sair do rascunho. E agora parece que todos resolveram falar sobre pontuação. Bem feito mais uma vez, quem manda ficar só chocando as idéias?

Bobagem minha, afinal o que importa é a discussão. E esse assunto serve para longas discussões, longas conversas, longas postagens, como bem sabe o Bernardo quando escreveu Imagine there's no scores...

Até hoje não entendi qual o critério para dar 85 pontos para um vinho e não 86. Ou qual a diferença entre os dois. E aposto que muitos dos vinhos que tomo - e gosto, e repito, e que não provocam efeitos colaterais além dos desejados - devem receber nota 70 do pessoal que segue o oráculo. Prefiro falar das sensações que eles me despertam, se me fizeram sorrir, se me provocaram curiosidade de saber mais sobre uma determinada uva, se me deixaram triste por descobrir que aquela garrafa escolhida a dedo abrigava um vinho que não acrescentou nada ao pouco que já sei.

Não faz sentido, para mim, usar algo tão matemático quanto uma escala de notas em algo tão subjetivo quanto o vinho. Ele pode ter uma nota 95, o que pelo oráculo significa estar perto da perfeição (e sobre isso eu falo mais adiante) e mesmo assim provocar reações completamente distintas entre, por exemplo, o João Filipe e o Eduardo, para citar duas das pessoas cuja opinião eu levaria em conta ao investir preciosos reais numa garrafa especial.

O Bernardo vai mais adiante: ele compara vinhos a obras de arte (o que me lembra a tradução que fiz do post do Tom/Fermentation, onde ele compara vinhos de qualidade à obra do Van Morrison). "Por que é que até hoje ninguém deu nota para pintura, hein?" , ele pergunta. E eu repito: por que?

Mas quem sou eu, uma iniciante na arte de apreciar vinhos e que além de tudo tem deficiência olfativa, quem sou eu para fazer essas perguntas? Por isso sinto um enorme consolo quando leio coisas como a entrevista que a Jancis Robinson deu à Veja, onde ela afirma categoricamente que "a verdade é que não existe certo e errado na apreciação de um vinho. Todos têm preferências individuais e sensibilidades diferentes." E acrescenta: "A análise de vinho é pessoal. Por isso, acho que reduzir um vinho a uma nota é tolo, ilusório."

E isso de dar uma nota 100 tem outro lado, que poucos mencionam. Na estabelecida loucura de pontuar vinhos, como diz o Patricio Tapia, autor do guia Descorchados, parece que esquecemos o que esse número quer dizer. 100 não tem falhas. 100 resiste a críticas e informa que não há vida depois disso. 100 é perfeição e "todos sabemos que a vida, a realidade, nunca é assim."

Para encerrar, que o assunto pode se estender por parágrafos e parágrafos, sugiro a leitura de outra postagem do Bernardo, Uma proposta modesta: abandonar a escala de 100 pontos, que vem a ser a tradução de um artigo de David Lillie. Boa leitura!

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Da série "Você nunca está sozinho quando tem um livro e um cálice de vinho"

Quando: quarta-feira, 19h
Onde: nosso terraço, com um restinho de sol e uma tímida brisa
Trilha sonora: "As ilhas dos Açores" entre outras do Madredeus.


Livro: O ano da morte de Ricardo Reis. Recebi meu batismo de Saramago ao ler, já há alguns anos, "Ensaio sobre a cegueira" e desde então tenho lido todos os livros dele que me passam pelas mãos. Esse é da Gabi, e ficou aqui ainda, junto com tantos outros. Saramago nos cativou. Com sua exigência em manter o idioma como é falado em Portugal, com seus diálogos separados por vírgulas, emendados em parágrafos, assim como se pensa, assim como pensa o autor, ou será como pensam os personagens, e quando nos damos conta, páginas e páginas já passaram.

De todas as obras dele, talvez a que eu mais goste seja "As intermitências da Morte". "Não há nada no mundo mais nu que um esqueleto", ele escreve. E então a Grande Dama Ossuda decide parar de trabalhar - ou fazer greve, se preferirem. É quando Saramago nos mostra uma Morte com sentimentos. Delicioso.


Vinho: Amarante Vinho Verde Colheita 2006. O nome do vinho vem a ser, também, o nome de uma sub-região dentro da Denominação de Origem Controlada Vinho Verde. Não encontrei no site da vinícola, Caves Acacio, o rótulo da minha garrafa. De novo a dúvida: é política das vinícolas exportarem seus vinhos com rótulos diferentes dependendo do mercado? Enfim, o vinho. Com uma cor bem clara, ele tem a característica frisante dos vinhos verdes. Leve e fresco, com 9% de álcool, R$14 a garrafa, era tudo o que eu queria num final de tarde como ontem, quente e abafado.

Ele no cálice, Madredeus no meu radinho Blip e Saramago no meu colo. Eu realmente não preciso de muito para ser feliz.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Papo sério

Encontrei no blog da Sam. A autora é a Taís, do Ombudsmãe (o que já diz muito). Não tenho nada a acrescentar a não ser dizer "assino embaixo".

PS - chateadamente reconheço que meus parcos conhecimentos de html são mais parcos do que eu pensava... Não consigo colocar as fotos de maneira que ampliem quando se clica nelas :( Vocês terão mesmo que olhar no blog da Sam ou no da Taís.